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Viagem

 Acho engraçado o fato das pessoas viverem cansadas, numa rotina massante e estressante, clamando por uma noite bem dormida de sono ou um descanso, dai quando tem folga vão para outro lugar para "cansar de um jeito diferente", dormir em uma cama estranha, passar o dia movimentando o corpo e pegando sol, para voltarem para casa exausto e cansados, com toda essa energia gasta para voltar a rotina de merda e prosseguir sua infelicidade.

De certa forma compreendo, quem mexe muito com a mente acaba ficando o tempo todo fazendo muita coisa que quando para, fica perturbado na própria cabeça achando que tem algo para fazer, precisando de uma distração a altura para sumir daquela perturbação mental que fica só ali, dentro daquela caixa craniana cheia de ossos e massa.

É tão complicado não ter paz dentro de si mesmo, ter que se cansar e voltar com o corpo cansado para a mente não perturbar e então cansar a mente e ficar os dois cansados ao mesmo tempo depois da folga.

Eu queria ter paz dentro de mim, entendo quem odeia férias, quem vende férias, quem trabalha o tempo todo, porque ficar sem fazer nada é tão agonizante e perturbante quanto vir ao trabalho.

Eu nunca descanso, estou sempre assim, parecendo uma perturbada em busca de sofrimento, se paro, eu sofro, se continuo, eu sofro.

Será se a vida é um constante sofrimento? Igual aos nossos músculos onde viver é sempre agredi-los, feri-los o tempo todo?

Nós vivemos de constante feridas, a cada passo, a cada respiração é um ferimento a nossas células, é um pedaço nosso ficando pra trás e uma ferida nova se regenerando, a cada passo é uma exposição a substancias que ativam nosso sistema imunológico que não pode dormir. Estamos o tempo todo lutando contra "forças externas" para sobreviver, como se não pertencêssemos a essa atmosfera, como se estivéssemos aqui de penetra e esse mundo quisesse nos expulsar e nos matar, intrusos na terra de alguém, se não bastasse essa ameaça constante ao nosso corpo eles conseguiram chegar no pior de nós, a nossa placa mãe, a cada dia que se passa mais de nós estão sendo atingidos por um mal invisível que nem nós mesmos conseguimos estudar, a nossa mente, que é vaga, é interno e externo ao mesmo tempo, inacessível, que por mais que a gente tente falar para o outro, explicar, procurar ajudar, estudar, nunca conseguimos de fato mostrar o que há dentro, nunca conseguem de fato chegar ao amago do problema, não conseguem de fato sentir o que é, como é, porque nem em palavras conseguimos descrever, porque não é palpável, não é visível, não é daqui, é próprio, individual, parecido, mas nunca igual, uma variante de um mesmo, infinidade dentro de algo finito, é incrível e ao mesmo tempo perigoso, porque o humano nunca soube se resolver só, mas sempre soube fingir, finge até morrer, mas carrega dentro de si sempre aquele mal que alguém conseguiu acessar e destruir a estabilidade, conseguiu chegar no ponto fraco e destruir o gigante.

O nosso mal, o nosso ponto fraco, sempre esteve dentro de nós e sempre foi individual, unica coisa que podemos chamar de realmente nosso e por mais que tentemos, não conseguimos dividir, uma benção ou um fardo, para mim é uma maldição, minha destruição, um verdadeiro masoquismo interno, onde me torturo e me destruo sem ninguém conseguir ver, tão sádico quanto o criador, a imagem e semelhança

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