Quando andava pela casa dava para se ouvir o rangir das madeiras, que só era audível por conta do silencio que sempre pairava no ar. A casa ficava escondida entre as plantas, parecia fazer parte da natureza daquele lugar distante da cidade. Uma senhora ia todos os dias para lá, limpar, fazer a comida que duraria para o dia todo e tentar animar a moça que sempre triste vivia lá a morar.
Mas com o tempo ela desistiu de cumprir a ultima tarefa, acostumou-se a apenas entrar, fazer as coisas e sair, nem palavras cordiais tentava proferir, já não adiantava falar algo ali, a moça nunca iria responder ou sorrir.
Já era de praxe, quando chegava a encontrava no canto do escritório escrevendo em seu computador empilhada de livros iluminada apenas pelo seu abaju de cor laranja e os raios do sol que entrava de leve na janela fosca, a moça não se dava nem ao trabalho de olhar para a senhora quando ela chegava. Antes a senhora se incomodava, mas hoje, já nem se importava.
Para evitar contatos, ela deixava uma lista de afazeres que fugiam do cotidiano, como lista de compras, algo que quebrou, algo a mais para limpar ou alguma necessidade adversa, de resto, era rotina pura, molhar as plantas, limpar os pratos, lavar as louças, trocar os lençóis, dobrar as roupas que trouxera da lavanderia, levar mais roupas sujas, limpar o chão, limpar os moveis, limpar o sofá e a mesa do centro (que era essencial, já que viviam sujos de restos de comidas e papeis), limpar o banheiro, a unica coisa que não fazia era cuidar do jardim lá fora, não sabia o certo, mas ele era sempre impecável.
Uma coisa que percebera a um tempo era a falta de espelhos ou qualquer coisa que refletisse na casa e isso passou a incomoda-la, tanto que já não cabia em si e ousou perguntar a moça enfim.
Chegou perto dela, ela estava concentrada como sempre, digitando sem parar e sem tirar por um instante os olhos da tela, nem quando a senhora começou a se aproximar - Moça, queria lhe fazer uma pergunta. - como de esperado, ela não respondeu e não parou de digitar, seu foco era impressionante, ela se aproximou mais e então perguntou mesmo sem o consentimento - Por que em sua casa não há espelhos?.
Pela primeira vez a moça parou de digitar e olhou lentamente para a senhora, aquele olhar vago e aquelas olheiras dava a eles um ar mais penetrante e sua pele pálida deixava elas ainda mais evidente, sua boca fina e discreta trazia ainda mais o foco de quem a olhava permanecer nos olhos e seu cabelo assanhado, negros, liso e comprido destacavam as maças saltadas de seu rosto. Aquele olhar não expressava nada, o que causava ainda mais terror na senhora que a fez engolir a seco e sua voz saiu tremula ao repetir a pergunta, a moça a ignorou e apenas olhou para janela, seus olhos ficaram marejados mas nenhuma lagrima saiu do seu rosto, era uma moça bonita, e a iluminação da sala deu a ela um ar ainda mais poético e na senhora apenas lhe restou a pena de uma moça tão bonita como aquela parecer ter problemas mais profundos do que ela pode enxergar em todos esses anos.
Ela toca no ombro da moça imóvel e desiste de tentar, volta a seus afazeres e no assunto nunca mais ousou tocar.
Agora todos os dias que ela volta a moça já não esta mais lá na mesa do escritório a digitar, agora ela apenas fica no quarto sentada na poltrona perto da janela, olhando para fora de uma forma tão singela, sem nada a fazer e sem nada a falar.
O tempo foi passando e algo mudou, o jardim lá fora já não era mais lindo e perfeito com esplendor, as plantas estavam morrendo e buracos mal feitos, plantas mal plantadas começaram a aparecer, parecia que desestabilizada agora a moça estava a perecer e a senhora se preocupou, não sabia o que tinha feito para aquela moça que a magoou.
Na sala não havia mais migalhas, a comida já não consumia mais, preocupada a senhora só ficava cada vez mais. Tentou falar com ela mas nada adiantava, aquela moça bela agora estava ficando cadavérica de tão magra.
Preocupada no dia seguinte ela veio com a policia, mas a moça não se encontrava mais com vida, só deixara para trás sua casa e suas escrita com o abaju que não estava mais a brilhar.


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