Estávamos no mesmo lugar de sempre, nossa poltrona já tinha o formato do nosso corpo e se encaixava perfeitamente ao sentar, Susan nem se espantava ao ouvir meus gemidos ao levantar, por causa da coluna que já não era mais tão sadia, e nem achava estranho quando eu voltava ofegante depois de ter ido até a geladeira e voltado para me sentar, já era rotina e os passos já eram tão previsíveis, não só para ela sobre mim, como para mim sobre ela.
Aquela memoria falha dela e suas inúmeras reclamações de novas doenças, dores e temores, suas paranoias inconstantes e suas invenções interminantes de historias que não parava de gostar de falar e escrever, nunca foi de escrever muito bem, além dos erros ortográficos, de virgulas e até sua letra era ridícula, mesmo assim eu nunca deixei de incentivar.
Já estávamos exaustos, de tão conhecidos, nossas conversas não passavam de 2 minutos corridos, o resto era só a presença um do outro no mesmo lugar - Minha cara Susan - eu começa a falar, com a voz cansada e batida e o tom que seus ouvidos já se acostumara a lembrar - diga, George - dizia ela, com a energia que sempre tinha, ela sempre foi muito brilhante apesar da tristeza amiga e era aquele brilho que até me fazia tentar manter uma conversa aqui e acolá - lembra de Firmina? - continuava eu, na tentativa de fazê-la lembrar, mesmo sabendo que não iria conseguir mesmo ao tentar - Que Firmina? Quem é ela? - dizia confusa - eu falei dela semana passada, lembra? Eu disse - eu teimava, eu sempre tentava fazê-la lembrar - Não estou lembrada, você sabe, minha memoria, odeio ela - dizia, já intimidade, envergonhada e talvez até se sentindo humilhada, ela odiava isso e odiava quando eu sempre começava com algo para ela lembrar - Então, apesar de você não lembrar, eu vou dizer, ela foi no cinema semana passada ver aquele filme que te falei - ela não lembrava do filme, nem tão pouco de Firmina, mas fez o que sempre fazia - hurrum... Mas, quem é essa Firmina mesmo? - eu conhecia aquela expressão, ela sempre vinha quando eu falava de alguma colega em questão, era o ciume que nunca saia, apesar de eu sempre dizer a ela que odiava ceninhas, ela tentava guardar pra ela, já era uma evolução para mim, era singela, mas eu a conhecia tão bem que já sabia que estava enciumada com tal rapariga, então fazia o que sempre fazia mesmo com a expressão dela de raiva pela ação interrompida e de sua mente que iria começar a inventar - então, o filme deve ser muito bom, já virou sucesso em bilheteria, podíamos ir qualquer dia desses - ela apenas balbuciou algo que não deu para entender e nos calamos, não tínhamos mais nada a dizer, e apesar dela passar o dia todo sem entender e enciumada pela Firmina que não quis fazê-la reconhecer, continuávamos na nossa rotina deprimente de sentar, assistir, ler e comer.
Ao cinema nunca iriamos, só comentaríamos algo aqui ou acolá, sem importância, só para falar, a coluna dela, é claro, era melhor que a minha, sentia dores, mas não era tão travada como a minha, ela ia e vinha com aquele corpo lá, se amostrando as vezes pra ver se eu ia notar, ainda me atraia a cabocla até mais do que quando nos conhecemos, mas a atração não era o suficiente para que nos mexamos, e ela sempre tentava me provocar, com o tempo, as investidas delas começaram a falhar e ela só fazia como rotina mas já perdeu a esperança de algo a mais rolar.
Era a minha coluna, sempre foi a desculpa que cansava de usar, ela sempre compreensiva, não se importava mais com tal faltar, nós apenas curtíamos a presença silenciosa que dávamos um ao outro, sem interesses e sem nada a cobrar.
Talvez relacionamentos duradouros sejam apenas isso, uma compreensão mutua do abismo resoluto no infinito. Nos entendiamos, nos compreendíamos e juntos em silencio curtíamos a tediosa rotina do lar, era, enfim, a paz que queríamos encontrar, ao menos para mim, posso falar.
De vez enquanto eu tirava meus olhos cansado da revista, jornal ou TV, e olhava para minha Susan, linda como sempre esperei ser, aqueles cabelos longos preto e aquele olhar calmo, na poltrona com a mesma expressão de anos, quem diria que estaríamos assim depois de 2 anos, e tínhamos apenas 24 anos e eu estava feliz mesmo sem falar.


Comentários
Postar um comentário