Eu sei que você, caro, raro, impossível, inacreditável e talvez até imaginário leitor, espera que hoje, ou talvez nem espera, eu faça um daqueles meus textos dramáticos, confusos, estranhos e patéticos, mas hoje não, espera, desculpa, na verdade, até esse momento, já que não me garanto até o fim do texto, mas até esse exato momento, NÃO.
Na verdade, eu sou do tipo de pessoa que além de andar em devaneios mentais que nada condizem ou condizem bem pouco com minha realidade sórdida, também gosto de inventar pequenas historias sem um inicio preciso e um final calculado, faço isso constantemente, na verdade, e já escrevi umas, ou uma, não me lembro, aqui.
Pois vamos a ela.
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Ouvia-se o "bip" da estação, os ranger das engrenagens, sentia-se o cheiro indecifrável de poluição no ar misturado com calor humano e o frio do lugar, era de fato uma mistura de sensações que ela não estava acostumada, viajara de tão longe para aquele lugar, e agora sem bagagem, já hospedada voltará apenas com seu casaco enorme marrom e felpudo, ali ela queria estar.
Quem a conhecia não entendia o motivo pelo qual ela viajará de tão longe somente para andar de metrô, o seu rosto não esbanjava reações de ansiedade, felicidade ou temor, ela apenas entrou no vagão e se sentou, talvez meio intimidade por aquele monte de gente, por que pessoas lhe causava horror.
Mas então lembrou-se, depois de todo o empurra-empurra da estação e do pequeno pico de adrenalina que dar na agitação até sentar no banco do vagão, do motivo pelo qual foi para lá, olhou para todos os lados e ninguém ficava a lhe observar, ela achava engraçado essa multidão ali, porque todos estavam nem ai com a presença de ninguém, apenas preocupados com suas mentes, com seus pensamentos, com seus problemas, eram varias cabeças mas ela via vários mundo individuais que só eles viviam e não viam os que os cercavam, era incrível poder ver as pessoas com calma sem pressa para voltar. Sentiu-se em paz até a solidão começar a cercar e seus pensamentos a cegar, assim como todos que ali estavam.
Tentou por diversas vezes despistar os pensamentos avulsos que sua mente insistia em dominar, e tentou focar nas pessoas que estava a observar, chegou a rir do carinha que tentou entrar mas tropeçou na porta, e do outro cara que derramou café em suas botas, ela estava observando tudo e guardando na memoria, se deleitando com as pessoas que não se impor................. até tudo ficar estático, seu coração ficou até agitado quando olhou pra frente e viu aquele homem lhe observar, estava ela virando vitima da sua própria monotonia do observar.
Começou a corar, se envergonhou por ter sido pega nesse flagra, ela já estava ali por varias horas e se perguntava se aquele homem estava nesse tempo todo a lhe observar, que idiota, para frente nenhuma vez ela quis olhar, não estava então longe dos grandes olhos de alguém, estava sendo olhada também como acabara de falar.
Será se ele nunca vai parar de encarar? Já estava ficando constrangedor aquele olhar, e involuntariamente sua mão colocou seu cabelo atras da orelha como costumava fazer quando ficava nervosa, tímida, intimidada, nervosa, estava tão nervosa que repetiu duas vezes que estava nervosa para si mesmo e isso significava que estava duas vezes mais convencida disso............. "oi" - disse o homem esquisito acabando com todo e qualquer dialogo que ela estava fazendo em sua própria cabeça - "oi" - se forçou a responder - "esta me olhando a muito tempo?" - continuou a falar, pois ela queria saber - "se muito tempo você considera a hora que você me viu te olhar e ficou ai parada feito uma estatua de uma obra de arte aterrorizada que acabou de ver um fantasma." - admirou em ver que ele era alguém de pensamento tão rápido quanto o dela em colocar as palavras no lugar, quer dizer, ela é assim quando não esta NERVOSA. - "isso me parece muito tempo" - respondeu ela, já menos tensa - "então foi a muito mais tempo" - respondeu ele sorrindo - "me viu entrar?" - ela responde já com um sorriso - "não quis te atrapalhar" - ele disse se aproximando e sentando perto dela para que as pernas dos passageiros não os atrapalhassem em dialogar.
Agora você deve estar pensando, meu amargo leitor, um homem e uma mulher no metrô, que clichê para uma historia de amor, mas não, hoje não, não até aqui, não por enquanto enfim, a mocinha que no metrô entrou ali e o homem que a observou ser feliz apenas conversaram e se acabaram de rir, falaram de suas vidas, suas historias, suas conquistas, conheceram um ao outro sem dizer o que eram ou quem eram, sem precisar pesar seus cargos ou seus status, apenas contaram detalhes mínimos que ampliados se transformavam em grandes historias e ali se completaram e chegaram no fim da viagem então, saíram do vagão, já era bem tarde, quase ninguém mais se encontrava ali, eles pararam para se despedir - "então é isso" - disse ela enfim. Sentindo-se obrigado por sua posição de macho e sem vontade nenhuma de querer estragar aquilo que eles tinham construído ali, ele disse por fim - "você quer?" - com uma cara confusa e arriscada de incerteza escancarada na face daquele homem qualquer - "não, não, não se sinta obrigado por essa obrigação, nós sabemos o que é isso aqui e com certeza não é isso ai" - disse ela, se acabando de rir ainda no clima da conversa que tinha se encerrados antes de descer ali - "eu sei, é que você é uma mulher atraente, eu só não queria parecer rude" - disse ele nervoso - "eu sei, obrigada por essa cortesia estranha, mas vamos encerrar essa sua façanha que já esta ficando constrangedor" - eles se entendiam tão bem, pareciam falar a mesma língua, era incrível até para um sonhador - "então nos vemos em alguma estação?" - disse ele em quase um clamor oculto - "nos veremos sim, sem data mas esta por vir, nos veremos quando o assunto não estiver mais tão fresco na memoria, quando houver mais historias, quando o assunto não acabar em um simples "iai", para que não fique vazia a presença amiga e para que pareça ser a primeira conversa na vida, para que nos conheçamos novamente e toda essa novidade seja revivida e deliciada como foi agora vivida até nos despedir e repetir para sentir essa sensação de novo de que é novo o prazer de nos conhecer mais uma vez".
Foi triste o que ela disse, se interpretar na forma que pensei ter ouvido, se despediram e talvez nunca mais fossem novamente vistos e então a neve voltou ao seu lugar e a estação voltou a ser só mais um lugar de pessoas vazias a perambular.



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